Lennon e a paternidade


Em agosto de 1980, quatro meses antes de sua morte, John Lennon gravou uma bela canção em homenagem a seu filho Sean. Trata-se da faixa Beautiful Boy, que está no disco Double Fantasy -- a última criação artística de John, após decidir ficar afastado do agitado mundo da música para se dedicar aos anos iniciais de seu menino mestiço.

Admito que, até me tornar pai, não dava muita bola para essa música. Do disco, sempre gostei de Woman e Starting Over, as quais cresci ouvindo com meus pais. Mas com a chegada do Antonio essa percepção mudou. Passei a ouvi-la com carinho, tentando decifrar o enigmático sentimento de paternidade. Percebi sua riqueza e curiosa simplicidade. É nela, aliás, que está uma das frases mais célebres de Lennon hoje: life is what happens while you're busy making other plans, logo depois dos versos before you cross the street, take my hand.

É curioso como, aos poucos, a paternidade vai consolidando no homem três sentimentos muito fortes, que estão bem ilustrados nesta canção de Lennon.

Primeiro, a sensação constante de proteção com relação ao filho. Lennon traduz isso com doçura ao cantar close your eyes, have no fear. The monster's gone, he's on the run and your daddy is here

É como se o pai fosse não só a fortaleza física, o porto seguro, mas também o livrador de medos psicológicos da criança -- os espíritos, as sombras, os monstros, os bichinhos imaginários. É uma força maior que transforma o menino (que era filho) em homem (que agora é pai), colocando-o em uma posição de superproteção.

Por enquanto, Antonio ainda é muito novo para expressar esses medos -- ele acaba de completar três meses de vida --, mas o sentimento de proteção física e psicológica está em completa fermentação. Aliás, como é bom falar em seu pequeno ouvido: papai está aqui, papai está aqui. Como é bom segurá-lo, dar colo e estender a mão.

Lennon também expressa uma mistura muito peculiar de ansiedade e paciência na cabeça paterna: I can hardly wait to see you come of age, but I guess we'll both just have to be patient.

Compartilho esse sentimento com John. E fico profundamente triste que ele tenha sido morto em dezembro de 1980, quando Sean tinha apenas cinco anos de idade. Infelizmente, ele não foi capaz de acompanhar a maturação de seu filho (algo que ele já tinha perdido com Julian, o filho que nasceu no início da carreira dos Beatles).

A curiosidade com o crescimento do filho é fascinante e real. Não escondo isso de ninguém. Pelo contrário, desde antes mesmo do nascimento de Antonio tenho registrado minhas divagações e perplexidades (positivas) com todo esse processo -- o privilégio que é colaborar na criação de um novo ser e acompanhar seu desenvolvimento de muito perto. Mas sejamos pacientes. Sempre.

Por fim, tem algo que me chama atenção em Beautiful Boy e que talvez se relacione com uma espécie de sentimento da paternidade. Em uma passagem emblemática da canção, Lennon pede para que seu filho faça uma pequena prece e repita: every day, in every way, it's getting better and better.

A origem desta frase é o mantra tous le jours à tous points de vue je vais de mieux en mieux, criado pelo psicólogo francês Émile Coué (1857-1926). Pelo pouco que sei -- não sou psicólogo e conheço muito pouco sobre hipnose --, trata-se de um método de "autodomínio por meio da autossugestão consciente" que se popularizou entre hipnólogos e seguidores de Coué na França e nos Estados Unidos (ver página onze do livro Self Mastery Through Conscious Autosuggestion).

Observe que Lennon modifica ligeiramente o popular mantra de Coué. Ele descola o "eu" para "as coisas" (não fala I am getting better, mas it's getting better). Talvez a mudança não seja por acaso. Na minha interpretação quase que rasteira, isso se relaciona com o papel do pai -- e da mãe também, obviamente; ou talvez mais ainda -- em auxiliar no processo de construção da segurança emocional do filho por meio dessa constante afirmação de otimismo e de positividade, típica dos pais.

É claro que existem casos que estão no outro extremo: pais que se tornam ameaçadores, indiferentes com o crescimento e que desestabilizam emocionalmente os filhos. O importante é estar ciente desse papel de influência. Gostaria que Antonio soubesse que me importo com isso e que, nesses três meses intensos de paternidade, sinto somente coisas boas. Estou vivendo o lado doce e sereno que Lennon eternizou.

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