A mente absorvente: de Montessori a Spitz


Anna Freud, no prefácio de Il Primo Anno di Vita Del Bambino de René Spitz, afirmou que o primeiro ano de vida de uma criança é a "idade mais obscura da história do homem". Não é por acaso que esse momento inicial de desenvolvimento mental causou tanto fascínio nos intelectuais do último século. É extremamente instigante observar as transformações diárias que acontecem nos bebês -- seres cheios de potência, alegria e dotados de uma "mente absorvente" que possui um tipo de inteligência distinto daquela dos adultos, como ensinava Maria Montessori.

Como pensa um bebê recém-nascido? Essa é uma pergunta que provoca adultos há séculos. A angústia é tamanha -- e tão frustrante da perspectiva meramente especulativa --, que o filósofo escocês Thomas Raid sugeriu em 1764 que desistíssemos de tal questionamento. É inútil investigarmos a mente dos recém nascidos, dizia Raid, pois não há condições de experimentarmos as coisas como eles. A partir da frustração de Raid, a filosofia da mente encontrou uma solução provisória: seguiu em frente com um enfoque exclusivo nos adultos. Foi preciso quase 150 anos para que educadores, psicólogos e filósofos voltassem a fazer esse mesmo questionamento: como se dá o desenvolvimento da mente de um recém-nascido? Que inteligência existe ali?

Desde que Antonio nasceu, tenho feito investigações livres sobre essa questão. Minha leitura de base, como relatei noutro texto, é La Mente Del Bambino (1949) de Maria Montessori. Trata-se de um poderoso ensaio sobre a "misteriosa relevação da vida" nas crianças e o "poder de criação" de tais seres, que não possuem vontade e consciência, mas sim um tipo de inteligência diverso, que temos muita dificuldade de compreender. No terceiro capítulo, Montessori explica que essa mente inconsciente é rica de inteligência e que o bebê possui um poder de sensibilidade intenso:

Il bambino è dotado di altri poteri, e non è piccola cosa la creazione che egli realizza: è la creazione di tutto. (....) Se chiamiamo cosciente il nostro tipo di mente adulta, quella del bambino dovrebbe essere chiamata inconscia, ma una mente inconscia non significa mente inferiore. Una mente inconscia può essere ricca d'intelligenza. (...) Come ha potuto il bambino assorbire il suo ambiente? Proprio per una caratteristiche che abbiamo scoperto in lui: un potere di sensibilità così intenso che le cose cho lo circondano risvigliano in lui un interesse e un entusiasmo che sembrano penetrare la sua stessa vita. Il bambino assimila tutte queste impressioni, non con la mente, ma con la propria vita.

Montessori usa o conceito de mente absorvente para explicar que a criança forma sua própria "carne mental" usando as coisas que estão no seu ambiente.  Ela é extremamente cuidadosa na adoção de uma concepção pluralista de inteligência, fugindo da ideia de que existe só um tipo de inteligência -- a nossa, dos adultos, que não enxergamos nas recém nascidos. Ela insiste na existência de um outro tipo de inteligência, muito conectado com questões espirituais e sensíveis. 

Para Montessori, o neonato, assim que sai do útero de sua mãe, inicia um trabalho formativo no campo psíquico. Trata-se de um período de vida embriológica construtiva no campo espiritual. Ela afirma, mais adiante, que a humanidade possui dois períodos embrionários; um pré-natal, que é similar a dos animais e outro pós-natal, exclusivo dos homens e que se desenvolve na "longa infância".

Se Montessori estiver correta, Antonio está nesse período de embrião espiritual, passando por um período extremamente sensível de formação de sua carne mental. Sua mente absorvente está criando as estruturas que permitirão desenvolver um tipo de inteligência "adulta". Aos poucos, ele enxerga formas, sente cheiros e odores, identifica ruídos e sons, percebe nossa presença física. Tudo isso a partir de uma força psíquica e uma inteligência em defesa da vida.

Um ser indiferenciado?
Quando Antonio completou quarenta dias de vida -- no dia 13 de novembro de 2016 --, aproveitei um domingo de folga para fazer uma leitura despretensiosa sobre desenvolvimento psicológico infantil. Ao buscar algumas obras em italiano, me deparei com o livro Il Primo Anno di Vita del Bambino, republicado em 2009 em Milão.

O livro é uma conferência feita pelo psicanalista austro-húngaro René Spitz, em Roma, em 1953. Spitz explica que seu objetivo é aplicar os conceitos da teoria da sexualidade de Sigmund Freud em observações experimentais com crianças recém-nascidas. Nessa palestra, Spitz investiga as "relações objetais" e propõe uma divisão hoje famosa entre estágios (pré-objetal; precursor do objeto; e estágio do próprio objeto libidinal).

Como ex-aluno de Freud, Spitz estava profundamente influenciado pelo clássico Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie de 1905, que apresentou as teses de Freud sobre objetos sexuais (objetos desejados) e objetivos sexuais (quais atos são desejados com quais objetos). É no segundo ensaio deste livro de Freud que estão as influentes análises sobre sexualidade infantil e sobre as fases oral, anal e genital -- hoje popularmente conhecidas.

Não sou um estudioso de teoria psicanalítica e das obras de Sigmund Freud, mas, pelo que entendi da rápida leitura de Spitz, Freud havia postulado que o recém-nascido é um "ser indiferenciado" e que, na fase oral -- até 18 meses de idade --, o infante não consegue diferenciar-se do mundo exterior. Spitz concorda integralmente com essa afirmação de Freud e postula duas teses. Primeiro, que no recém-nascido o pensamento não existe. Segundo, que a interação do bebê é puramente fisiológica.

Secondo il concetto di Freud, confermato unanimemente dall'osservazione e dall'esperienza di quanti hanno studiato i neonati, il pensiero alla nascita non esiste. Altrettanto vale per l'immaginazione, le sensazioni, la percezione, la volontà. Alla nascita il lattante il è uno stato indifferenziato. Tutte le sue funzioni, compresi gli istinti, si differenziano in seguito, in base ad un processo di maturazione e di sviluppo. (...) Nel neonato (...) non esiste un'organizzazione della personalità comparabile a quella dell'adulto; non si sviluppano iniziative personali; l'interazione con l'ambiente è di natura puramente fisiologica.

A forte afirmação de Freud e Spitz parece se sustentar diante de uma concepção única do que é pensamento -- um pensamento racional, autoconsciente, articulado por meio de uma linguagem socialmente construída. Em outras palavras, o pensamento dos "adultos civilizados". No entanto, ao observar a vida de Antonio nesses quarenta dias, fico tentado a questionar essa ideia. Nesse período em que tenho observado meu filho, me parece existir algo além do puramente fisiológico. Para além da alimentação e dos processos vegetativos -- respiração, digestão e produção de energia --, Antonio tem desenvolvido traços humanos formidáveis: ele já sorri, estuda visualmente objetos e tem esboços de movimentos táteis (que parecem ser apenas reflexos, por ora). 

No entanto -- e aqui trago de volta as ideias de Montessori --, me parece que essa interação não se limita a questões motoras e de "desenvolvimento" em sentido puramente funcional. Quando estou de muito bom humor e faço brincadeiras com sorrisos e gargalhadas, parece que Antonio sente essa energia, capta esses impulsos alegres e cria algo. O que explica isso?

Para Spitz, o que Antonio está experimentando é a simples maturação -- o desdobramento de funções inatas, desenvolvidas filogeneticamente. O desenvolvimento -- assim como teorizado na biologia -- ocorre pela emergência de formas, funções e comportamentos que são resultantes de interações entre o organismo e os meios interno e externo (incluindo aqui elementos socioeconômicos e culturais). Perceba como a linguagem de Spitz é funcionalista: para ele, Antonio está em um processo natural de desenvolvimento a partir de condições inatas. Para Montessori, há algo além disso: trata-se de uma nova etapa embrionária, de caráter psíquica, onde a mente absorvente trabalha para que o pequeno ser se torne homem.

Para Montessori, se não conseguimos enxergar esse "milagre da vida" e essa "potência criadora", então o problema está conosco. É nossa obsessão pela razão e pelo evolucionismo darwinista que nos impede de enxergar algo além de processos biológicos.

A díade mãe-filho: um sistema fechado?
Uma segunda questão problemática -- que me fez pensar despretensiosamente -- é o modo como Spitz e Freud dão atenção exclusiva à relação mãe e filho, excluindo o pai da maioria das análises teóricas. Não que eu queira protagonismo nessa relação -- já fui alertado pelo pediatra que minha relação é secundária e que devo buscar meu papel de apoiador --, mas me parece que essas teorias foram construídas em períodos históricos em que o homem, de fato, estava completamente afastado das relações afetivas iniciais. A mãe fazia tudo; o pai ia trabalhar. Isso já não é verdade hoje, especialmente para casais que militam por cuidados compartilhados -- na medida do possível. Se há maior participação do pai na construção afetiva da criança, isso mudaria o enfoque na "díade" mãe e filho? Ou não?

O enfoque exclusivo na relação mãe e filho parece se justificar nos recortes de pesquisa da teoria psicanalítica clássica. Freud tinha como agenda de pesquisa o estudo da satisfação sexual e a constituição de objetos sexuais na mente individual. Dizia ele no ensaio de 1905: "Em um tempo em que o início da satisfação sexual ainda está vinculado ao recebimento de alimentos, a pulsão sexual encontra o objeto sexual fora do corpo da criança, na forma do seio materno". O primeiro objeto sexual, conectado à satisfações das pulsões, seria o corpo da mãe. A mãe é a responsável pela manutenção da vida da criança, pensava Freud, e o bebê é incapaz de saber que existe "mundo externo" nesses primeiros meses.

Após cinquenta anos da publicação do ensaio de Freud, René Spitz assume as premissas de Freud em sua palestra em Roma e foca seu estudo no "sistema fechado" da criança de até um ano. Para Spitz, esse "sistema fechado" é algo bastante simples, pois não há relação entre o recém nascido e o ambiente. O enfoque deve ser a díade mãe-filho (na díade, a criança é o sujeito e a mãe é o objeto). Diz Spitz no original:

Per il neonato l'ambiente è costituito per così dire da un unico individuo: la madre o il suo sostituto. Inoltre quest'unico individuo non è percepito dal bambino come separato da lui, ma fa parte semplicemente di un insieme di bisogni di nutrizione e di soddisfazione. (...) In contrasto con l'adulto, ne deriva che il lattante, allevato in maniera normale, passa il primo anno di vita in un 'sistema chiuso'. Per questa ragione, l'investigazione psichiatrica del bambino deve esaminare la struttura di questo 'sistema chiuso'. Si tratta di un sistema semplice, costituito di sue soli componenti: la madre e il bambino; dovremo esaminare quindi le relazioni in seno a questa 'diade'. (...) Nel rapporto madre-bambino, la madre rappresenta il fattore ambientale o, se si preferisce, si può dire che la madre rappresenta l'ambiente. Contrapposto a questo fattore sta il corredo congenito del bambino, che a questo punto à costituito soprattutto dal problema della maturazione e dell'Anlage. (...) I due fattori interagenti sono quindi la madre, con la sua individualità già formata, ed il bambino con un'individualità in via formazione.

Spitz defende, ainda, que nesse "sistema fechado" se desenvolvem três organizadores da psique: primeiro, aos três meses, quando ocorre o sorriso diante da face humana (ou a Gestalt privilegiada); segundo, no oitavo mês, quando se manifesta a ansiedade diante de estranhos; terceiro, aos quinze meses, quando a criança manifesta o "não".

Spitz promoveu enormes avanços na identificação de patologias causadas pela privação emocional na infância -- como o "hospitalismo" --, dando um enfoque inédito aos efeitos da privação do contato materno com crianças de até um ano de idade (há um belo registro em vídeo das pesquisas de Spitz). Essas inovações científicas ocorreram graças a essa observação aguçada dos efeitos das relações de distanciamento entre mãe e filho (para Spitz, "a existência da mãe, sua simples presença, age como um estímulo para as respostas do bebê, sua mínima ação -- por mais insignificante que seja -- mesmo quando não está relacionada com o bebê, agindo como um estímulo"). Essas descobertas foram fundamentais para o campo da psicologia infantil, sem dúvidas.

No entanto, a ideia de um "sistema fechado" me parece uma simplificação racional-funcionalista diante das provocações de Maria Montessori sobre a força criadora do recém-nascido, a embriologia espiritual e sua absorção vital (que é receptora e criadora, ao mesmo tempo). Existe algo além do processo de "maturação fisiológica" do bebê e sua relação com o "ambiente", que é sua mãe? O afeto do pai tem algum papel importante no estímulo à força criadora da criança?

Não quero, com essas perguntas, sugerir que René Spitz está errado ou contestar os psicanalistas freudianos. Seria absurdo um outsider como eu contestar cânones dessa área do conhecimento humano a partir da simples observação de meu filho e alguma poucas leituras. Mas as dúvidas são sinceras. Acompanhar o crescimento de Antonio é fascinante.

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