Primeiras observações sobre Antonio


Antonio nasceu em uma segunda-feira de chuva em São Paulo, após um trabalho de parto que teve início na noite das eleições municipais e que progrediu, em diferentes fases, até culminar no rompimento da bolsa, na parte da manhã, e nas fortes contrações que permitiram o encaixe e sua expulsão do útero, às seis e meia da tarde.

Não vou antecipar o relato de parto que provavelmente a Priscila irá escrever nos próximos dias. Ele foi muito rico em etapas e teve uma transição inesperada: durou quinze horas em parto domiciliar e foi finalizado no Hospital Metropolitano na Lapa em parto normal. Participei ativamente do processo e poderia entrar em detalhes, mas preservarei a narrativa para a mãe, a verdadeira protagonista dessa história. Quero apenas registrar as sensações de sentir o choro inicial do Antonio e seu desenvolvimento nesses três primeiros dias, na perspectiva de pai.

As impressões do primeiro encontro
O primeiro choro de Antonio me causou uma profunda sensação de alívio. Assim como ocorreu comigo em 1987, meu filho teve dificuldades para passar pelo canal vaginal e ficou algumas horas encaixado com a moleira "na boca do gol" (os Zanattas da minha linhagem têm esse problema: cabeça muito grande). Eu sabia que a dor e a dificuldade era mútua naquele trabalho de parto -- tanto da mãe quanto dele. Os dois estavam lutando para que ele saísse sem lesões e forte. Era uma dança coordenada como se a mãe empurrasse fortemente e o filho forçasse sua cabeça mesmo estando comprimido em um espaço absurdamente pequeno. 

Esse momento de ápice em um parto normal é muito intenso, pois ali concentram-se as maiores forças da mãe, com camadas de sons que se sobrepõem umas às outras: o grito da expulsão, os pedidos tensos de respiração do pai, as palavras de ordem e incentivo das enfermeiras, o barulho dos passos acelerados das assistentes. Tudo é muito potente, selvagem e dramático. Depois dessa explosão vem o silêncio, a respiração, o choro e o contato visual. Foi nesse momento que respirei aliviado por ver que o Antonio era um menino absolutamente forte: tinha um tronco largo, uma cor vistosa e um choro potente, mostrando que seu pulmão funcionava como uma sanfona, entrando e saindo ar com uma melodia estridente, que enchia a sala de parto e os ouvidos dos presentes como música humana pura.

Essa celebração musical iniciada pelo choro -- e por isso que a pintura Celebration, Birth de Richard Pousette-Dart é bastante adequada para este relato -- foi acompanhada por uma transformação radical da expressão de Priscila. Em segundos, seu semblante deixou de expressar exaustão e dor e passou a mostrar graça, leveza e profunda alegria. É como se nada de dolorido e difícil tivesse ocorrido. Nada mais importava. Tudo estava ali, naquele novato da vida. Aquilo era pura felicidade.

Antonio nasceu grande, sem aquela cara típica de bebê -- todo amassado e inchado. Isso pois ele nasceu tardiamente, com quarenta e uma semanas e quatro dias (o regular é quarenta). Antonio saiu de sua mãe com três quilos e meio e 52 centímetros de comprimento. Não nasceu gordo ou gigante, mas corpulento e bochechudo. Nasceu bonito -- e meu julgamento é completamente enviesado. Ao vê-lo pela primeira vez, em meio a todas aquelas fortes emoções do momento final do parto, lembro de pensar três coisas: que sua cor era muito bela para um recém-nascido; que seu rosto era uma mistura intrigante dos traços da Priscila e dos meus -- uma mistura que demandaria um olhar mais cuidadoso, pois não era a cara de um só; e que seu tronco era ligeiramente maior que suas pernas, lembrando a estrutura física de sua bisavó Ana Zimiani Zanatta (1925-2012) e do seu avô Odacir Antonio. A genética é mesmo incrível.

Observações iniciais
Passei os primeiros três dias observando o modo como Antonio luta ferozmente pela vida. É fascinante. Nessa primeira semana, Antonio tem três ações instintivas: ele mama, chora e caga. Seu instinto de sobrevivência e seu código genético têm essas ações perfeitamente programadas. Ele sabe exatamente como identificar o bico do peito de sua mãe, bem como sabe fazer a sucção deste alimento -- um exercício intenso e repetitivo.

Ele também sabe como chorar de modos distintos para se comunicar conosco. Eu havia lido em diferentes livros de gravidez e paternidade/maternidade -- como no What to Expect When You're Expecting, um best-seller dos Estados Unidos que apresenta questões básicas -- que os pais seriam capazes de identificar os diferentes tipos de choros do seu bebê. Achava que isso era "forçação de barra" e que não aconteceria tão cedo. Mas, em dois dias, já consegui diferenciar os choros do Antonio: quando o choro é mais manhoso e termina com uma voz mais fraca e mais "graciosa", significa que ele quer mamar; quando o choro é mais estridente e sem essa variação de mais ou menos intenso, significa que ele está com urina ou fezes. Essa interpretação do choro de Antonio tem se confirmado nas checagens dos últimos dois dias.

Para além dessas funções instintivas, Antonio tem uma capacidade de observação incrível. Essa observação, obviamente, não é necessariamente visual. Tenho a impressão que ele está desbravando todos os seus campos sensoriais, aprendendo a distinguir sons, identificar grandes objetos e iluminações, sentir cheiros fortes e experimentar o toque da pele. E essas experiências sensoriais não se limitam aos sentidos tradicionais -- tato, olfato, visão, paladar e audição (detalhados nos capítulos de An Inquity Into Human Mind, publicado por Thomas Reid em 1764). Percebi que mesmo quando me aproximo lentamente, em silêncio, do berço de Antonio ele mexe seus olhos rapidamente, quase que abrindo-os, sugerindo que está ciente de minha presença.

Parece-me que, mesmo sendo uma criança de uma semana, existe já a separação notada pelo estudo pioneiro de Dietrich Tiedemann (1787) entre o instintivo (os diferentes choros), a experiência (o diferenciar de sons) e o espiritual (a percepção de presença humana). Do mesmo modo que Tiedemann ficou fascinado pelo desenvolvimento de seu filho na Alemanha, notando o trabalho de elaboração pessoal de um bebê -- um processo de construção original e próprio, distinto da imitação ou repetição --, estou profundamente interessado em observar como isso acontece e quais são as elaborações da mente de Antonio. Entender como ele se torna um criador, como pensa e interage ativamente com o mundo.

Não pretendo replicar nenhum método ou conjunto de conceitos de estudos anteriores para observar Antonio -- não quero fazer nenhum experimento científico ou tornar isso entediante --, mas fazer algo despretensioso e cheio de insights. Charles Darwin não manteve um diário sobre o desenvolvimento de seus filhos para pensar melhor?

Criação e criatividade
Uma das principais sugestões dada pela Priscila para que eu pudesse compreender conceitos mais avançados em pedagogia infantil foi o estudo da italiana Maria Montessori (1870-1952). Quando descobrimos a gravidez, ela me introduziu ao método montessoriano de educação -- uma concepção de educação baseada na liberdade, na autonomia do indivíduo e na criação. Montessori desenvolveu essa teoria no início do século XX, em oposição ao modelo prussiano de educação disciplinada, estruturada e centrada na recepção de saberes (aquilo que nosso Paulo Freire, provavelmente mais popular que Montessori, chamou de educação bancária). Cinquenta anos após sua morte, seus métodos são experimentados em diferentes escolas do mundo e sua teoria é discutida nos principais centros de pedagogia do ocidente.

Há alguns meses, aproveitando que meu amigo Michel Souza estava em Turim, no norte da Itália, pedi que ele trouxesse um livro original de Montessori para que pudesse ler no italiano. Ele foi a uma livraria e comprou La Mente del Bambino, publicado pela editora Garzanti. Recebi o livro em mãos há dois meses, mas só comecei a lê-lo agora, tendo um bambino -- um bimbo, para ser mais preciso -- para cuidar.

Os capítulos iniciais me impressionaram pelas diferentes conexões com filósofos que fazem parte de minha formação. Montessori me lembra Marx ao centrar-se no desenvolvimento total das potencialidades humanas como finalidade da educação, mas vai além ao observar os poderes desconhecidos das crianças ("il bambino è dotato di poteri sconosciuti, che possono guidare a un avvenire luminoso. Se veramente si vuole mirare ad una ricostruzione, lo sviluppo delle potenzialità umane deve essere lo scopo dell'educazione").

Montessori também dialoga com Mahatma Gandhi -- e esse ensaio foi escrito na Índia em 1948, no ano da morte de Ganhi -- ao afirmar que a "defesa da vida" deveria ser a finalidade da educação, sendo ignorada pela ciência de meados do século XX. Para ela, "não existe um verdadeiro sistema que ajude no desenvolvimento da vida" e não há atenção aos primeiros anos de vida -- os anos essenciais de formação da personalidade e de enorme "força psíquica" das crianças ("nei tempi moderni la vita psichica del neonato ha suscitato grande interesse, e alcuni psicologi hanno fatto oggetoo della loro osservazione lo sviluppo infantile dalle prime tre ore dopo la nascita. Altri, dopo aver studiato accuramente, sono venuto alla conclusione che i primi due anni di vita sono i più importanti nello sviluppo dell'uomo"). As crianças, no entanto, possuem uma força intelectual tremenda e uma inteligência direcionada à defesa da vida.

Para Montessori, a grandeza da personalidade humana começa com o nascimento. A educação deve servir de ajuda para "os poderes psíquicos inatos do indivíduo humano". Nesse sentido, Montessori afasta-se completamente da tradição inglesa de filosofia -- inaugurada por John Locke e sua afirmação de que as crianças seriam tábulas rasas que passariam a adquirir conhecimento -- e aposta em uma concepção de força psíquica natural que antecede a inteligência dos adultos. Para ela, se essa força psíquica for corretamente estimulada em um projeto de educação para a vida que começa no nascimento, haverá maior clareza de visão e o desenvolvimento de um "novo homem" -- diferente do atual. 

Revertendo a lógica de que os homens constroem/formam as crianças, Montessori defende uma ideia contra-intuitiva de que são as crianças que constroem os homens e que não prestamos a devida atenção a essa "grande opera dei bambini". Não levamos a sério uma inteligência em defesa da vida. Não levamos a sério a educação desde o nascimento e não aprendemos -- como tentou demonstrar, por décadas, Paulo Freire -- que o verdadeiro papel do professor (ou dos pais) não é ensinar por meio da simples transmissão falada, mas sim preparar o ambiente adequado para que experiências sejam efetuadas de modo autônomo.

Essas ideias são valiosas e pretendo aplicá-las nos próximos anos. O protagonista nessa história será Antonio. Sempre.

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