Eliane Brum, os corpos e as coisas


O ensaio de Eliane Brum publicado hoje no El País, intitulado "Black blocs, os corpos e as coisas", toca em pontos centrais da crise política atual e apresenta uma leitura das lutas e resistências que supera a maioria das análises produzidas pela(s) esquerda(s) no Brasil, geralmente limitadas por uma matriz teórica presa ao lulismo e aos conceitos da intelligentsia ligada ao Partido dos Trabalhadores.

Serei muito objetivo neste comentário, pois quero apenas registrar duas teses que o ensaio apresenta para futuras reflexões.

A ausência dos black blocs
A primeira tese é que a polícia militar age de forma ideológica, definindo quais manifestações devem acabar bem e quais devem acabar mal.  Brum parte de uma constatação dos últimos protestos relacionada à participação dos black blocs: se os protestos de quatro de setembro foram pacíficos e os paulistanos exigiram que os black blocs tirassem a máscara ou deixassem a manifestação, por que a polícia militar jogou bombas na população?

Voltemos para a polêmica em torno dos black blocs. Desde 2013, criou-se um senso comum nas classes médias em razão do discurso alckiminiano de que a repressão só ocorre em "casos de vandalismo". Os não adeptos da tática black bloc criaram um discurso contra a depredação simbólica operacionalizada neste método. "Queremos protestar sem quebrar nada, pois assim não teremos violência policial. Portanto, vamos impedir os mascarados". Essa espécie de crença bom-mocista tomou um choque de realidade no dia quatro de setembro. Tornou-se evidente que a polícia militar protege somente os protestos anti-PT e as celebrações verde-amarelas. O mesmo não ocorre nos protestos Fora, Temer

Com esse tipo de atuação ideológica -- a de provocação do caos, a intimidação dos manifestantes e a violência gratuita --, gera-se a falsa imagem de "confronto" para que as manchetes dos principais jornais concentrem-se nos episódios de violência e diminuam as pautas substanciais desses protestos (algo que discuti no texto "O mal-estar da política brasileira"). Nesse ponto, estou completamente de acordo com Eliane Brum e Vladimir Safatle: a função da polícia brasileira tem sido a de "gerenciar a desordem e produzir imagens de terror para minar o apoio popular às manifestações".

Essa foi uma valiosa lição com a ausência dos black blocs: não caiam no argumento barato de que a repressão policial somente acontece quando há lesão ao patrimônio privado e ameaça à segurança pública. Existe uma diretiva de atuação da polícia politicamente estruturada. O terror tem fins.

A presença dos black blocs
A segunda tese do ensaio de Brum é que os black blocs, enquanto tática operada por estratos socioeconômicos baixos, desmonta a falsa tese de confronto de classes entre polícia militar e manifestantes anti-Temer, chamando nossa atenção para o modo como as forças de seguranças operam em uma lógica de proteção das coisas e massacre dos corpos.

Michel Foucault não é citado no ensaio de Eliane Brum, porém a tese parece ecoar os primeiros capítulos de Vigiar e Punir, quando Foucault produz uma investigação dos debates da França pós-revolucionária e a estruturação de um sistema punitivo e criminal baseado na proteção da propriedade privada -- um dos valores supremos da burguesia. Foucault torna claro como a burguesia francesa estrutura um sistema jurídico que pune com muito mais força as violações de direitos de propriedade na esfera individual, e minimiza os crimes econômicos relacionados à corrupção, mensuráveis em uma perspectiva coletiva. Mais importante, Foucault dá o devido destaque às relações entre sistemas punitivos o domínio dos corpos com fins econômicos. Diz Foucault em um trecho amplamente discutido do primeiro capítulo:

Os sistemas punitivos devem ser colocados em uma certa economia política do corpo: ainda que não recorram a castigos violentos ou sangrentos, mesmo quando utilizam métodos "suaves" de trancar ou corrigir, é sempre do corpo que se trata - do corpo e de suas forças, da utilidade e da docilidade delas, de sua repartição e de sua submissão.

Ao analisar os métodos dos black blocs -- com base nas pesquisas de Pablo Ortellado (Universidade de São Paulo) e do antropólogo David Graeber (London School of Economics) --, Brum chama atenção para o modo como a "quebra de vidraças" (a lesão à coisa) não é compreendida em sua dimensão simbólica, fazendo com que a opinião pública e a esquerda brasileira percam de vista a verdadeira tensão que está em jogo: a tensão entre corpos e coisas e a resistência a um projeto de Brasil que, há séculos, estrutura-se a partir da exploração dos corpos, sejam eles indígenas, negros ou operários. Diz Brum:

O governo Temer, em seu retrato literal de posse, é branco, é masculino, é arcaico. Temer é uma figura que parece deslocada no Brasil que passou por mudanças importantes desde a República Velha. É uma figura amarelada. Mas, se é, também não é. Ou não estaria ocupando o lugar de uma presidente democraticamente eleita. Nossa herança escravocrata e genocida segue bem atual porque jamais superada. Desde a “Abolição” nunca houve políticas públicas suficientes para superá-la – na maior parte do tempo, nem mesmo interesse em fazer algo a respeito. Os corpos, no Brasil, seguem valendo muito pouco. Seguem podendo ser torturados, violados e também exauridos. Bem mais o dos indígenas e o dos negros. Assim, quando os black blocs ressurgem e voltam a apontar para o patrimônio material e de imediato vozes se levantam para falar numa oposição de classe entre a PM que destrói os corpos e os mascarados que destroem fachadas de prédios e “carros”, há algo a ser estranhado.

O argumento de Brum ecoa o de Ortellado: ao criminalizar os black blocs e apoiar uma política de terror baseada na infiltração em tecnologias de informação e nas prisões preventivas, a sociedade deixa de enxergar o que há por trás dos atos simbólicos: que os corpos insurgentes estão se rebelando contra a violência policial que mata em número recorde e os retrocessos do governo Temer que atingem os corpos (educação, saúde, previdência).

A pequena violência patrimonial é usada quase como performance artística de demonstração de uma violência muito maior: aquela sistemática do Estado e das forças policiais, que parece absurda aos olhos de todo o mundo, menos aos brasileiros.

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