Um conto paternal


A notícia da paternidade me veio numa situação muito inusitada.

Era primeira semana de fevereiro e eu estava em Buenos Aires, hospedado em um hotel na Avenida Santa Fe, quase na esquina da calle Esmeralda. Lembro que fazia calor e o sol era ardente nas ruas do centro. Estava na cidade em razão de um encontro organizado pela Privacy International. Até então, nada demais. Mais uma viagem de trabalho com outros pesquisadores e ativistas.

Eu havia acabado de fazer o check-in no hotel e estava me preparando para tomar uma ducha quando a Priscila me ligou no Whatsapp. Perguntou se eu estava com um tempinho para uma conversa no Skype. Eu respondi que sim, claro. Ela então me questionou se eu estava com tudo pronto para a reunião que deveria fazer o pessoal de Londres. Perguntou detalhes de minha preparação e se eu estava calmo. Achei estranho o nível de preocupação excessiva dela, mas não disse nada na hora. Fiquei apenas tentando decifrar o que estava por trás daquele zelo meticulosamente arquitetado. Algo estava estranho naquela conversa.

Eis que Priscila saca, de algum lugar fora da minha visão, um teste de gravidez, daqueles de farmácia, com dois risquinhos. Imediatamente, começou a rir e chorar ao mesmo tempo, chacoalhando o pequeno dispositivo com empolgação. O que estava acontecendo? Será que era isso mesmo? Eu estava tomando conhecimento por Skype que iria ser pai? Não lembro exatamente o que disse, mas passei a rir e gritar de emoção junto com a Pri, torcendo para que a conexão não caísse. Era isso mesmo que estava rolando. Priscila estava grávida de um filho meu.

Não sei ao certo quanto tempo conversamos -- a intensidade do momento fez com que minha noção temporal se tornasse comprimida e expandida como a fole de um acordeon argentino. Rimos muito e comemoramos, mesmo sem os merecidos abraços calorosos. Ela me pediu desculpas, mas disse que não aguentaria ficar os cinco dias de minha viagem sem compartilhar a notícia. Eu faria o mesmo. Imagine a ansiedade de guardar um segredo desses?

Combinamos que não falaríamos para ninguém até eu voltar para São Paulo. Desligamos a ligação e comecei a me arrumar para a reunião de trabalho. Minha cabeça estava a mil e eu só conseguia pensar em uma frase que se repetia em looping inesgotável: eu vou ser pai.

Saí do hotel alguns minutos antes da reunião para tomar um ar fresco na Avenida Santa Fe. Precisava caminhar um pouco e olhar o céu. A cidade era a mesma, mas havia algo diferente nos meus olhos. Não eram lágrimas, mas sim uma forma de ver as coisas. Caralho, eu vou ser pai. Essa frase martelava minha cabeça. Eu estava bobo e não conseguia me concentrar direito. Pedi um café e tive dificuldades em contar os pesos exatos para o caixa. Tateava as moedas mas a mente estava em outro lugar.

Não sei como, mas consegui fazer uma reunião de trabalho e participar de um jantar sem compartilhar a notícia bombástica que havia recebido horas antes. Eu bebia e sorria sozinho. Estava feliz. Tentava participar de rodas de conversa sobre ativismo ou sobre a política argentina, mas só conseguia pensar numa coisa: o que iria mudar dali em diante? O que significaria se tornar pai?

Tomei muitas taças de vinho tinto. Incontáveis. Voltei para o quarto do hotel, tirei minha roupa e coloquei um computador no  colo. Certamente passava de meia-noite. Pouco importava. Precisava ouvir uma canção de Spinetta ali em Buenos Aires. Enchi os pulmões de ar e, com o hálito alcoolizado de vinho, cantei os versos de Todas las Hojas Son Del Viento: Hoy, que un hijo hiciste, cambia ya tu mente, cuidalo de dogas, nunca lo reprimas, dale el aura misma de tu sexo. Todas las hojas son del viento, ya que el las mueve hasta en la muerte; todas las hojas son del viento, menos la luz del sol.

Bonita canção.

Antes de dormir, saí do Spinetta para os versos do Bono em Dirty Day: From father to son, in one life has begun a work that's never done. Father to son. Sempre gostei desse trecho, especialmente essa dimensão do trabalho inacabado da paternidade -- a work that's never done. Não que a paternidade em si seja um projeto inacabado, mas gosto de lembrar que somos apenas elos de um processo maior de paternidade, que se mantém ao longo do tempo. Era diferente ouvir essa canção, pela primeira vez, sendo pai.

Dormi solitário pensando nisso, abraçando uma almofada como se fosse a mãe do meu filho.

Nenhum comentário:

Mais lidos no mês

Mailing E-mancipação